Oasis: Don't Look Back in Anger é uma carta de amor aos fãs
Documentário sobre a turnê de reunião de Liam e Noel Gallagher troca as antigas brigas por uma história sobre reconciliação, fãs e o tamanho que as músicas do Oasis ganharam durante 15 anos de ausência.

Assistimos com antecedência a Oasis: Don't Look Back in Anger, documentário sobre a volta do Oasis, e talvez a melhor maneira de resumir o filme seja usando duas palavras que qualquer fã da banda reconhece imediatamente: fucking biblical. Porque, acima de tudo, esse é um filme feito como uma carta aberta aos fãs.
Para quem ama Oasis, para quem acompanhou os 15 anos de separação de Liam e Noel Gallagher e, principalmente, para quem continuou guardando a esperança de assistir aos dois irmãos dividindo um palco novamente. Dirigido por Dylan Southern e Will Lovelace, dupla que já trabalhou em documentários musicais como Shut Up and Play the Hits e Meet Me in the Bathroom, o longa acompanha a gigantesca turnê Oasis Live '25, responsável por colocar os Gallagher novamente juntos depois do fim da banda em 2009. O projeto foi criado pelo roteirista e produtor Steven Knight, conhecido por Peaky Blinders, e teve acesso aos ensaios, bastidores, shows e aos primeiros depoimentos conjuntos de Liam e Noel em mais de duas décadas.
Segundo a divulgação oficial, a turnê passou por cinco continentes, teve 41 apresentações e reuniu mais de 2 milhões de fãs. Só que o grande mérito de Don't Look Back in Anger é entender rapidamente que essa história não precisa mais ser sobre descobrir quem estava certo ou errado. Quem entrar na sala esperando uma grande investigação sobre o que exatamente aconteceu entre Liam e Noel, quem pediu desculpas primeiro ou qual foi a conversa definitiva que levou à reconciliação provavelmente sairá sem essas respostas. O documentário não tenta montar uma autópsia dos 15 anos de ataques públicos, entrevistas atravessadas e provocações entre os irmãos. E isso claramente é uma escolha.
Em vez de procurar novamente um culpado pela separação, o filme prefere perguntar outra coisa: o que acontece quando duas pessoas finalmente deixam tudo aquilo para trás e descobrem que milhões de pessoas também estavam esperando por esse momento? É justamente nesse ponto que surge o verdadeiro terceiro protagonista do documentário: o público. A câmera não fica apenas em cima de Liam e Noel. O filme olha constantemente para quem está do outro lado das grades, nos estádios, nas ruas e nas filas. Há fãs chorando, desconhecidos se abraçando, pais apresentando as músicas aos filhos e adolescentes que sequer eram nascidos quando o Oasis encerrou as atividades em 2009 cantando canções lançadas décadas antes. Essa escolha transforma o documentário em algo maior do que simplesmente um registro de uma turnê.
Na tela grande, aquelas imagens que dominaram as redes sociais ao longo de 2025 — estádios lotados, multidões cantando Don't Look Back in Anger, Wonderwall, Live Forever e outros clássicos — ganham uma dimensão completamente diferente. É realmente arrepiante. Talvez essa seja a maior qualidade do longa: ele consegue explicar a relevância cultural do Oasis sem precisar passar duas horas dizendo que Oasis é uma banda importante. Você simplesmente olha para dezenas de milhares de pessoas cantando juntas e entende. O próprio Steven Knight definiu o projeto como uma história sobre reconciliação em um momento de divisões. Para ele, a turnê conseguiu unir diferentes gerações, culturas e países através das mesmas músicas. E isso fica evidente ao longo do filme.
A turnê Live '25 começou em 4 de julho de 2025, em Cardiff, no País de Gales, marcando a primeira apresentação de Liam e Noel juntos em aproximadamente 16 anos. Depois, o Oasis passou por Reino Unido, Irlanda, América do Norte, Ásia, Austrália e América do Sul. O encerramento aconteceu justamente no Brasil, em 23 de novembro de 2025, em São Paulo. Por isso, existe ainda uma ligação especialmente forte entre o documentário e o público brasileiro. O país não foi apenas mais um destino do retorno: foi o lugar escolhido para encerrar toda aquela jornada.
Quando Don't Look Back in Anger deixa os estádios e volta sua atenção para Liam e Noel, surgem alguns dos melhores momentos do filme. O documentário acompanha o primeiro ensaio dos irmãos juntos depois de tantos anos, a tensão natural daquele reencontro e as dúvidas sobre como tudo funcionaria quando eles finalmente subissem ao palco. São cenas pequenas perto da escala gigantesca da turnê, mas justamente por isso funcionam tão bem.
Depois de anos em que qualquer notícia sobre Oasis parecia girar em torno de brigas, o estranho agora é ver os dois simplesmente coexistindo novamente. Não existe uma tentativa de convencer o público de que Liam e Noel se transformaram de repente nos irmãos mais próximos do mundo. A relação continua carregando as personalidades e particularidades que sempre estiveram ali. Mas existe maturidade. E talvez seja justamente isso que faça a reconciliação parecer mais verdadeira.
Um dos momentos mais emocionantes envolve também a morte de Gary “Mani” Mounfield, baixista dos Stone Roses e Primal Scream, amigo próximo dos Gallagher. A perda aparece no filme como um lembrete de que o tempo passou durante aqueles anos em que o Oasis ficou separado. Esse talvez seja um dos temas silenciosos do documentário inteiro. Liam e Noel voltaram, mas não voltaram para 1995. Eles estão mais velhos. Os fãs estão mais velhos. Muitos agora levam seus próprios filhos aos shows. Pessoas importantes ficaram pelo caminho. E uma geração completamente nova descobriu aquelas músicas enquanto a banda sequer existia. É isso que torna a reunião tão poderosa. O Oasis parou, mas as músicas não pararam junto com ele.
O documentário mostra que Wonderwall, Live Forever, Champagne Supernova, Don't Look Back in Anger e tantas outras continuaram sendo descobertas, tocadas e transmitidas de uma geração para outra durante toda a ausência dos Gallagher. Talvez nem Liam e Noel tivessem dimensão completa disso até finalmente voltarem para o palco.
O filme mostra os dois percebendo aos poucos a escala daquela reação. Noel aparece visivelmente emocionado em diferentes momentos diante da resposta do público. Liam continua sendo Liam — irreverente, imprevisível e absolutamente consciente do personagem que construiu —, mas também demonstra entender que aquele retorno passou a representar algo muito maior do que apenas mais uma turnê.
E Don't Look Back in Anger não tem vergonha de ser sentimental. Isso também pode ser sua maior fragilidade. O filme evita mergulhar profundamente nas partes mais desconfortáveis da história dos Gallagher. As razões específicas da reconciliação permanecem protegidas e as antigas brigas não passam por uma grande revisão crítica. Quem esperava uma investigação nos moldes de “afinal, o que realmente aconteceu?” pode considerar a produção excessivamente celebratória. Mas não acredito que esse seja um problema acidental. Don't Look Back in Anger simplesmente não quer ser Supersonic.
Lançado em 2016, Oasis: Supersonic já contou a história da formação da banda, da explosão meteórica nos anos 1990, da relação turbulenta entre os irmãos e dos primeiros anos que transformaram cinco músicos de Manchester em uma das maiores bandas britânicas de sua geração. O novo documentário existe para registrar outro momento. Não navega como o Oasis nasceu. E sim nos mostra o caso raro de quando uma banda que parecia definitivamente encerrada retorna 15 anos depois da separação e percebe que o mundo continuou cantando suas músicas durante todo esse tempo.
A duração oficial é de aproximadamente 123 minutos, e o filme foi pensado para uma passagem limitada pelas telonas, incluindo sessões em IMAX em alguns mercados antes de chegar posteriormente ao Disney+. A estreia mundial aconteceu no Festival de Veneza, em 5 de setembro de 2026, onde o documentário foi apresentado fora de competição. Poucos dias depois, Liam e Noel também apareceram juntos na estreia em Londres, mais uma imagem que seria praticamente inimaginável alguns anos atrás.
Para quem é fã de Oasis, Don't Look Back in Anger é praticamente obrigatório. Mas talvez seu maior acerto seja conseguir funcionar também para quem simplesmente gosta de música. Porque, retirando os Gallagher da equação, existe uma história universal ali: sobre aquelas bandas que acompanham períodos inteiros da nossa vida, sobre músicas que ficam ligadas a pessoas e momentos específicos e sobre o sentimento de dividir tudo isso com milhares de desconhecidos dentro de um show.
No final, Oasis: Don't Look Back in Anger não é simplesmente um documentário que só celebra Oasis ter voltado. E sim, todas as pessoas que estavam esperando por eles.
E agora o público brasileiro também poderá viver essa história na tela grande: Oasis: Don't Look Back in Anger estreia nos cinemas do Brasil nesta quinta-feira, 10 de setembro de 2026, com distribuição da Walt Disney.


