Hans Zimmer quer distância da trilha clássica de “Harry Potter”
Compositor da nova série da HBO afirma que pretende ficar “o mais longe possível” da música criada por John Williams e construir uma identidade própria para a nova adaptação.

A nova série de Harry Potter da HBO não pretende depender musicalmente da nostalgia dos filmes originais. Hans Zimmer, responsável pela trilha sonora da produção ao lado da equipe da Bleeding Fingers Music, revelou que quer seguir um caminho próprio e ficar “o mais longe possível” do trabalho de John Williams.
Em entrevista ao Collider, Zimmer falou sobre o desafio de criar uma nova identidade sonora para personagens e lugares que há mais de duas décadas estão diretamente ligados às composições feitas para os filmes. A tarefa é especialmente complicada porque a música de John Williams se tornou praticamente inseparável do universo de Harry Potter. Basta ouvir as primeiras notas de Hedwig’s Theme para que elementos como Hogwarts, o mundo bruxo e a própria franquia sejam imediatamente reconhecidos. Por isso, Zimmer não pretende simplesmente atualizar ou criar novas versões das melodias clássicas.
A decisão, segundo o compositor, não representa uma rejeição ao trabalho de Williams. Pelo contrário: justamente por considerar aquela trilha tão importante e difícil de superar, a equipe prefere evitar uma comparação direta e procurar uma linguagem musical própria para a adaptação da HBO. Zimmer trabalha na série ao lado dos compositores Kara Talve e Anže Rozman, integrantes da Bleeding Fingers Music, companhia que ele ajudou a fundar com Russell Emanuel e Steven Kofsky. Quando a equipe foi anunciada oficialmente para a produção, os compositores já haviam reconhecido o tamanho da responsabilidade de assumir uma franquia com um legado musical tão forte.
Na ocasião, Zimmer, Talve e Rozman disseram que a música de Harry Potter se tornou um ponto de referência para compositores do mundo inteiro e afirmaram que pretendiam criar algo novo enquanto respeitavam aquilo que veio antes. Agora, Zimmer deixa mais claro como esse respeito deve aparecer na prática: em vez de tentar reproduzir o som estabelecido por Williams, a intenção é buscar outro caminho. John Williams compôs a trilha de Harry Potter e a Pedra Filosofal, lançado em 2001, além de trabalhar em Harry Potter e a Câmara Secreta e Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban. Foi no primeiro filme que surgiu Hedwig’s Theme, composição que acabou ultrapassando o próprio personagem que dá nome à faixa e se tornou o principal tema musical de toda a franquia.
Mesmo depois da saída de Williams, elementos de sua música continuaram aparecendo nos filmes seguintes. Patrick Doyle assumiu a trilha de Harry Potter e o Cálice de Fogo, enquanto Nicholas Hooper trabalhou em Harry Potter e a Ordem da Fênix e Harry Potter e o Enigma do Príncipe. Já Alexandre Desplat compôs as duas partes de Harry Potter e as Relíquias da Morte. Apesar das mudanças de compositores, Hedwig’s Theme continuou sendo utilizado e reinterpretado ao longo da saga, ajudando a manter uma identidade musical reconhecível entre os oito filmes. Essa é justamente uma das diferenças que a nova série terá de enfrentar.
A produção da HBO vai recontar desde o início a história dos livros de J.K. Rowling, começando novamente por Harry Potter e a Pedra Filosofal. Isso significa apresentar novas versões de Hogwarts, seus professores, estudantes e lugares ao mesmo tempo em que grande parte do público já possui referências visuais e musicais muito fortes construídas pelos filmes. A proposta da série é utilizar o formato televisivo para dedicar mais espaço aos acontecimentos dos livros, incluindo personagens e histórias que foram reduzidos ou eliminados das adaptações cinematográficas.
O trio principal será formado por Dominic McLaughlin como Harry Potter, Alastair Stout como Ron Weasley e Arabella Stanton como Hermione Granger. O elenco adulto traz nomes como John Lithgow no papel de Alvo Dumbledore, Janet McTeer como Minerva McGonagall, Paapa Essiedu como Severo Snape e Nick Frost como Rúbeo Hagrid. A série é comandada pela showrunner Francesca Gardiner, enquanto Mark Mylod, conhecido por trabalhos em Succession, dirige diversos episódios e também atua como produtor executivo.
A nova trilha de Zimmer e da Bleeding Fingers será uma das ferramentas utilizadas para separar essa versão dos filmes anteriores. Isso não significa, entretanto, que Hedwig’s Theme esteja oficialmente proibida ou que nunca será utilizada na série. Até o momento, HBO, Warner Bros. e os compositores não anunciaram se algum tema específico de John Williams poderá aparecer pontualmente. A declaração de Zimmer indica principalmente que a trilha principal da nova produção não será construída como uma simples continuação ou releitura da música dos filmes. O desafio é semelhante a outros momentos da carreira do compositor.
Zimmer já precisou criar uma nova identidade para personagens ligados a trilhas extremamente famosas, como aconteceu em O Homem de Aço, de 2013. Naquele projeto, ele decidiu não reutilizar o clássico tema de Superman também composto por John Williams e desenvolveu uma linguagem completamente nova para a versão interpretada por Henry Cavill. Com Harry Potter, a intenção parece seguir uma filosofia semelhante: respeitar a importância do que já existe sem deixar que essa herança determine toda a música da nova produção. A própria campanha da HBO ainda mantém o resultado em segredo.
No material oficial divulgado pela franquia, a nova trilha de Hans Zimmer foi descrita como uma das principais novidades que ainda serão apresentadas antes da estreia. A série Harry Potter estreia no Natal de 2026 na HBO e no HBO Max, iniciando por Harry Potter e a Pedra Filosofal.
Quando essa nova geração embarcar no Expresso de Hogwarts, portanto, o cenário e os personagens serão familiares — mas, se depender de Hans Zimmer, o som dessa viagem deverá ser bem diferente daquele que acompanha os fãs desde 2001.

