Diretor de Donnie Darko se sente assombrado pelo filme
Richard Kelly afirma que o sucesso e a ambição de “Donnie Darko” criaram um parâmetro difícil de superar e ajudam a explicar seus 17 anos longe da direção.

Richard Kelly não dirige um novo longa-metragem desde A Caixa, lançado em 2009, e parte desse afastamento tem relação direta com o peso de seu próprio maior sucesso. O cineasta revelou que ainda se sente “assombrado” por Donnie Darko, filme que escreveu aos 23 anos, dirigiu aos 25 e que acabou se transformando em um dos maiores cults do século 21.
Segundo Kelly, lançar logo no início da carreira um projeto tão ambicioso e complexo acabou criando um parâmetro que ele passou a tentar alcançar novamente em tudo o que desenvolveu depois. “Eu sou um pouco assombrado por ele”, afirmou. Para o diretor, não faz sentido assumir um novo longa se ele não sentir que o projeto aspira a um nível semelhante de ambição, complexidade e quantidade de ideias.
Kelly reconhece que provavelmente teria dirigido mais filmes ao longo dos últimos anos se tivesse buscado projetos mais simples, mas faz questão de esclarecer que não considera simplicidade algo negativo. O problema, segundo ele, é pessoal: histórias com várias camadas, conceitos e possibilidades de interpretação são justamente o que mais desperta seu interesse criativo.
Essa postura ajuda a explicar uma filmografia extremamente curta para um diretor que estreou com um filme tão influente. Depois de Donnie Darko, Kelly comandou apenas Southland Tales – O Fim do Mundo, de 2006, e A Caixa, de 2009. Desde então, passou 17 anos desenvolvendo projetos que acabaram não avançando, além de recusar trabalhos pelos quais não sentia envolvimento emocional suficiente.
O próprio cineasta afirmou recentemente que esse período longe das câmeras não significa que tenha parado de trabalhar. Segundo Kelly, diferentes projetos consumiram anos de desenvolvimento antes de esbarrarem em obstáculos comuns de Hollywood. Ele também disse não querer dedicar cerca de 18 meses de sua vida a um filme no qual não acredita apenas para manter uma carreira mais ativa.
O peso de Donnie Darko se torna ainda maior quando se considera a idade de Kelly durante a criação. O primeiro rascunho foi escrito em outubro de 1998, quando ele tinha apenas 23 anos e havia acabado de se formar na USC. O roteiro surgiu em aproximadamente um mês e canalizou as ansiedades do cineasta naquele período, além de suas lembranças da adolescência no final dos anos 1980.
Lançado em 2001, o filme acompanha Donnie, interpretado por Jake Gyllenhaal, um adolescente que começa a receber visitas de uma figura misteriosa vestida com uma fantasia de coelho chamada Frank. A partir daí, a história mistura viagem no tempo, destino, saúde mental, universos paralelos e elementos de ficção científica em uma narrativa que até hoje gera diferentes interpretações.
Curiosamente, Donnie Darko não começou sua trajetória como um grande sucesso. O lançamento comercial aconteceu poucas semanas depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, e o fato de a história envolver um motor de avião caindo sobre uma casa tornou sua divulgação particularmente complicada naquele momento. O filme estreou em poucas salas e teve uma recepção inicial difícil, mas foi ganhando público posteriormente por meio do mercado doméstico e de sessões especiais até alcançar o status de cult.
O próprio Kelly descreveu a reação inicial como “bem brutal” e lembrou que o projeto teve dificuldades até para conseguir distribuição depois de sua passagem pelo Festival de Sundance. Com o tempo, porém, a reputação mudou completamente e o longa passou a ser reconhecido como uma das produções mais emblemáticas dos anos 2000.
Essa relação entre o diretor e sua obra mais conhecida ganhou um novo capítulo em 2026, quando Donnie Darko completou 25 anos. Além de um relançamento em 4K nos cinemas, Kelly decidiu finalmente expandir aquele universo com The Philosophy of Time Travel, romance que funciona como uma continuação oficial da história e será lançado em 15 de dezembro de 2026.
O título vem do livro fictício escrito por Roberta Sparrow dentro do próprio Donnie Darko. Na nova obra, Kelly pretende explorar as consequências imediatas da morte de Donnie e acompanhar acontecimentos que se estendem pelos 14 meses seguintes, aprofundando personagens, investigações e questões deixadas abertas pelo longa original.
O projeto é tão grande que o diretor já afirmou existir material suficiente para três filmes. Sua ideia seria começar com produções animadas capazes de reunir novamente integrantes do elenco original por meio das vozes e, posteriormente, avançar a história quase três décadas no tempo para voltar ao live-action com os personagens mais velhos.
Kelly diz que trabalha há cerca de dez anos na expansão desse universo e que só pretende avançar quando sentir que o resultado terá qualidade suficiente para justificar sua existência. Essa preocupação resume justamente a relação complicada que ele mantém com o próprio filme: Donnie Darko abriu sua carreira, mas também criou um padrão criativo que ele nunca quis abandonar.
Depois de 17 anos sem dirigir um novo longa, Richard Kelly continua desenvolvendo projetos e procurando a oportunidade de voltar às câmeras, mas deixa claro que não pretende retornar simplesmente para aumentar sua filmografia. Se Donnie Darko ainda o “assombra”, é porque o diretor continua tentando encontrar uma história capaz de provocar nele o mesmo entusiasmo e ambição que teve aos 23 anos.


