Digger, novo filme de Tom Cruise, cava fundo na ambição, mas encontra pouco
Dirigido por Alejandro G. Iñárritu, “Digger” transforma Tom Cruise em um magnata grotesco numa sátira ambiental ambiciosa, exagerada e feita para dividir opiniões.
LUIZA BATTAGLIONHÁ 13 DIAS7 MIN DE LEITURA
FOTO · DIVULGAÇÃO
Digger é exatamente o tipo de filme que parece destinado a provocar duas reações completamente opostas: fascínio ou rejeição. Dirigido por Alejandro G. Iñárritu, vencedor do Oscar por Birdman e O Regresso, o longa coloca Tom Cruise em um papel bastante diferente daqueles que dominaram sua carreira recente e constrói ao redor dele uma sátira sobre poder, dinheiro, ego e crise ambiental.
Cruise interpreta Digger Rockwell, um magnata do petróleo descrito pelo próprio filme como um dos homens mais poderosos do mundo.Depois de ajudar a provocar uma catástrofe ambiental de proporções globais, Rockwell se convence de que é justamente a pessoa capaz de salvar a humanidade do desastre que ele mesmo ajudou a criar. A premissa já deixa bastante claro o tipo de personagem que Digger quer colocar no centro da história.
Rockwell é rico, arrogante, barulhento e completamente convencido da própria importância. A sátira de Iñárritu mira justamente figuras extremamente poderosas que desenvolvem uma espécie de complexo de salvador: homens cercados de dinheiro, influência e pessoas incapazes de confrontá-los, mas que continuam acreditando que possuem a solução para problemas que muitas vezes ajudaram a criar. Por isso, Digger é propositalmente irritante.
Boa parte do filme acompanha personagens egocêntricos discutindo, entrando em crises, fazendo discursos absurdos e tentando controlar uma situação que já escapou completamente de suas mãos. E é exatamente nesse ambiente que Tom Cruise encontra sua principal oportunidade.
Depois de passar boa parte das últimas décadas associado principalmente a grandes filmes de ação, especialmente à franquia Missão: Impossível, Cruise surge aqui irreconhecível em vários sentidos. O ator adota uma caracterização pesada, uma postura corporal diferente e uma interpretação propositalmente caricata. Seu Digger Rockwell é patético, exagerado, ridículo e, em determinados momentos, completamente desconectado da realidade. É também uma das atuações mais interessantes de Cruise em muitos anos.
O próprio exagero que torna o personagem insuportável permite que o ator explore um registro muito distante da imagem de herói hipercompetente que marcou boa parte de seus trabalhos recentes. Essa transformação já colocou Cruise novamente dentro das conversas sobre premiações.
O ator acumula indicações ao Oscar por , e , além de uma indicação como produtor por , mas nunca venceu uma estatueta competitiva de atuação.
Digger certamente oferece o tipo de papel que costuma chamar atenção durante uma temporada de prêmios: transformação física, personagem extravagante, diretor premiado e uma atuação muito distante da imagem normalmente associada ao astro. Isso não significa, evidentemente, que uma indicação esteja garantida.
Acredito que o filme possa trazer divergências em cada telespectador. Há quem possa enxergar Digger como uma sátira ousada, imprevisível e visualmente ambiciosa, enquanto outros considerariam o longa excessivo, superficial e cansativo. E tudo é válido, essa divisão faz sentido depois de assistir ao filme.
Digger possui um começo bastante eficiente e encontra novamente força em seu encerramento, mas existe um trecho considerável entre esses dois momentos no qual a história parece girar repetidamente ao redor das mesmas ideias. A crítica aos bilionários, à exploração ambiental e ao comportamento autodestrutivo das elites está presente desde o início.
O problema é que o filme nem sempre encontra novas camadas para desenvolver aquilo que já deixou bastante claro. Para uma produção tão preocupada em construir uma mensagem grandiosa sobre o mundo contemporâneo, Digger às vezes é surpreendentemente vazio.
A sátira funciona, principalmente quando expõe o absurdo dos personagens, mas nem sempre consegue transformar suas provocações em algo mais profundo. Existe uma diferença grande entre apresentar uma ideia importante e realmente explorá-la. Digger frequentemente faz muito bem a primeira coisa e nem sempre consegue fazer a segunda.
O elenco ajuda bastante a sustentar essa estrutura. Além de Tom Cruise, o filme reúne Riz Ahmed, John Goodman, Sandra Hüller, Michael Stuhlbarg, Jesse Plemons, Emma D'Arcy e Sophie Wilde. John Goodman interpreta o presidente dos Estados Unidos, enquanto Ahmed aparece como uma das figuras diretamente envolvidas na tentativa de compreender e enfrentar o desastre ambiental. Sandra Hüller interpreta alguém ligada à própria família de Rockwell.
Mesmo com um elenco desse tamanho, porém, o filme permanece quase completamente dominado por Cruise.
Isso faz sentido dentro da proposta, já que Digger Rockwell foi construído para ocupar espaço demais em qualquer ambiente em que entra. Visualmente, o projeto também carrega um peso considerável. Iñárritu volta a trabalhar com Emmanuel Lubezki, diretor de fotografia vencedor de três Oscars consecutivos por Gravidade, Birdman e O Regresso.
Digger foi filmado inteiramente em VistaVision, formato que ajuda a dar às imagens uma escala enorme e reforça o contraste entre a grandiosidade visual da produção e o comportamento quase infantil de seus personagens. A trilha sonora é assinada por Cosmo Sheldrake, enquanto o design de produção conta com o vencedor do Oscar Dennis Gassner. Esse cuidado técnico torna a ambição do filme impossível de ignorar.
Digger quer ser uma grande sátira política, uma comédia absurda, um filme sobre colapso ambiental, uma crítica aos bilionários e ainda uma reflexão sobre nossa necessidade de procurar salvadores quando o próprio sistema está desmoronando. É muita coisa, o que acaba resuiltando na sua principal contradição.
O filme critica personagens consumidos pela própria ambição enquanto é, ele mesmo, um projeto extremamente ambicioso. Em alguns momentos, essa combinação funciona perfeitamente. Em outros, todo esse excesso começa a sufocar aquilo que a história realmente tinha para dizer.
Existe ainda uma grande surpresa narrativa que muda bastante a percepção sobre aquilo que o filme está fazendo. É uma escolha arriscada e seria um desserviço revelar exatamente o que acontece.O que pode ser dito sem spoilers é que essa decisão reorganiza parte do que o público viu anteriormente e coloca os exageros do filme sob uma perspectiva diferente. A ideia é interessante. Também é o tipo de escolha que provavelmente vai dividir ainda mais o público.
No meu caso, me desencantei.
Por outro lado, esse risco combina perfeitamente com Digger. Não existe muita coisa segura no filme. Iñárritu trabalha com personagens enormes, performances exageradas, imagens grandiosas e uma mensagem que frequentemente chega perto de gritar para o espectador.
As comparações com Dr. Fantástico e Não Olhe para Cima são inevitáveis, principalmente pela tentativa de usar humor e absurdo para discutir uma ameaça global provocada por decisões humanas. Mas Digger possui um comportamento próprio. Ele é mais estranho, mais teatral e, em alguns momentos, ainda mais disposto a irritar deliberadamente quem está assistindo.
Essa talvez seja sua maior qualidade e também seu maior problema. Tom Cruise entende completamente o jogo: ele não tenta tornar Digger Rockwell agradável ou heroico, pelo contrário. O ator parece se divertir desmontando justamente a imagem de homem capaz de resolver qualquer problema que ele próprio passou décadas construindo no cinema. Aqui, Cruise interpreta um homem que acredita ser a pessoa mais importante da sala, mesmo quando tudo ao redor demonstra exatamente o contrário.
É difícil imaginar Digger funcionando tão bem com outro ator. Ao mesmo tempo, é possível imaginar um filme muito melhor ao redor dessa atuação. No final, Digger é um filme sobre pessoas consumidas pela própria ambição feito com uma ambição gigantesca. Existe algo muito interessante nessa contradição.
O longa brinca bem com o excesso dos personagens, mas não consegue transformar todo o seu próprio excesso em uma experiência igualmente interessante durante suas mais de duas horas. Quem quiser ver Tom Cruise como raramente apareceu no cinema encontrará motivo suficiente para assistir. Ele está completamente entregue ao absurdo, disposto a parecer ridículo e construindo uma performance que pode facilmente colocá-lo no radar da temporada de premiações.
Quem espera que o roteiro possua a mesma força da atuação principal, porém, pode sair frustrado. Digger cava fundo em algumas ideias importantes, mas nem sempre encontra muita coisa lá embaixo. Ainda assim, é difícil acusá-lo de ser um filme indiferente.
Ele provavelmente vai irritar muita gente, conquistar outra parte do público e gerar discussões justamente porque parece construído para isso.
Digger estreia nos cinemas brasileiros em 1º de outubro de 2026.
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